Venho refletindo essa semana sobre a diferença entre estar acordado e estar em um estado de consciência desperto. Qual a verdadeira diferença entre o estado de sono, quando sonhamos, e o estado de vigília, quando achamos que estamos despertos, conscientes de nossas ações? Do ponto de vista da consciência individual, será que dormimos naquele e despertamos nesse último? Quando dormimos e sonhamos quase não temos controle de nossas ações mentais, de forma que quando saímos do estado de sono, nos lembramos de cenas difusas e inverossímeis em meio às quais apenas reagimos da mesma maneira, sem muitas ações intencionais.
A consciência humana apenas percebe as coisas através dos contrastes que elas fazem com as outras. Imaginemos-nos, por exemplo, em um quarto fechado onde todos os móveis, a janela, a porta, o chão e o teto estivessem pintados exatamente da mesma cor, digamos branco, sem uma mínima variação de tonalidade. Imaginemos também que a iluminação no quarto estivesse tão bem distribuída que não se fizesse nenhuma sombra. Ao olharmos em volta do quarto, quase não perceberíamos objeto algum, pois os limites físicos dos objetos visualmente se misturariam por não haver variação de cor nem sombra. Para sairmos do quarto, provavelmente teríamos de recorrer ao tato até acharmos a porta. No entanto, se pintássemos a porta de marrom, o piso do chão fosse branco, as paredes fossem amarelas, cada objeto tivesse uma cor distinta e a iluminação fizesse sombras, logo os diferentes objetos ficariam claramente perceptíveis à nossa visão. São os contrastes e as variações que fazem as coisas serem percebidas pela nossa consciência.
Percebemos que uma pessoa é louca quando suas ações e seu discurso são incondizentes com os dos demais. Numa cidade onde todos sofressem do mesmo tipo de loucura, uma pessoa normal seria tida como louca, pois nessa cidade ser louco seria o padrão aceito de normalidade. A principal característica do louco é ser muito diferente dos demais. Da mesma forma, percebemos que alguém é estrangeiro pelos seus costumes diferentes, seus traços físicos peculiares, as roupas diferentes, a língua e o sotaque incomuns em nosso meio. O que alguém faz ser percebido como estrangeiro é o contraste que ele faz com os demais. Em seu próprio país esse alguém deixa de ser estrangeiro, não apenas pelo fato de ter nascido ali, mas por compartilhar das mesmas características socialmente aceitas.
Voltando à questão do sono e da vigília, julgamos que quando estamos acordados nossas ações são totalmente conscientes. Agimos porque queremos, através do livro arbítrio. No entanto, pode ser que não seja bem assim. Arthur Schopenhauer, eminente filósofo alemão, já dizia: “Podemos fazer o que queremos, mas não podemos querer o que queremos”. Essa é uma verdade que se aplica a quase todos nós. Eu posso, por exemplo, sentir vontade de colocar uma calça jeans ou uma bermuda para ir a uma festa, mas dificilmente passará por minha mente o desejo de vestir uma saia escocesa, seja numa ocasião de festa ou em outra qualquer. Isso é porque o meu querer (no exemplo, o desejo de vestir calça jeans ou bermuda) dificilmente quebrará a barreira dos padrões aceitos como normais pela sociedade. Assim como no exemplo, a maioria das nossas ações não ultrapassa essa barreira. Aceitamos os padrões impostos pelos meios em que convivemos sem muita reflexão ou questionamento. Certa vez li em um livro um exemplo interessante. Uma certa mulher, ao preparar pernil para o almoço, sempre cortava as pontas do pernil antes de colocá-lo na panela. O marido, em uma ocasião, perguntou por que preparava pernil daquela forma. Ela respondeu:
- Ah, eu faço assim porque foi desse jeito que mamãe me ensinou.
Então, contagiada pela curiosidade do marido, ela resolve ligar para a mãe para perguntar qual era a razão daquele modo de preparo. E a mãe responde:
- Faço pernil dessa maneira porque foi assim que eu aprendi com a sua avó.
Ainda não satisfeita com a resposta, ela finalmente liga para a avó para entender qual era a razão de se preparar pernil daquele jeito, ao que a avó responde:
- Ah, minha neta. Eu fazia assim porque a panela que eu tinha era muito pequena.
Infelizmente ainda há poucos que, imbuídos de curiosidade e desconfiança, questionam os porquês de suas próprias ações. Muitos de nós agimos apenas por reflexo das ações dos demais à nossa volta, e tal como os objetos brancos que desaparecem em um quarto onde todo o resto é branco, nossa individualidade se funde com os estímulos externos dos meios em que vivemos. Se o que diferencia o sonho da realidade é o fato de nossas ações mentais serem meros reflexos de estímulos difusos e sem nexo, a ponto de rirmos do sonho quando acordamos, enquanto estamos em atividade a situação não é muito diferente, pois apenas reagimos, da mesma maneira. As pessoas dificilmente intervêm nos próprios hábitos e no próprio querer de forma consciente. Uma debilidade coletiva se torna imperceptível para o indivíduo, pois ele não tem com o que constrastar, uma vez que ele mesmo se torna um portador de tal debilidade. Dessa maneira, muitos passam pela existência repetindo vícios, sucumbindo à mediocridade mental, praticando crueldades, desejando coisas fúteis de forma autômata e mecânica. Para boa parte da humanidade, existir é estar num estado de dormência constante.
O despertar da consciência começa quando aprendemos a constratar o que vemos dentro e fora de nós. A reflexão, o espírito investigativo, a curiosidade, a sinceridade para consigo mesmo, as desmitificações e um sentimento de inconformismo e indignação em meio as injustiças sociais funcionam, analogamente, como a tinta com que se pinta os objetos do quarto branco a fim de fazer as coisas perceptíveis. Infelizmente, viver dormindo ainda é muito mais cômodo. Há uma grande diferença entre existir e viver desperto. Obviamente, não escrevo esse texto como uma pessoa muito diferente das demais, mas como alguém que se esforça constantemente para despertar, evitando o risco de cair no sono, que é inerente à vida humana.
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