segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Muleta da Humanidade

Um homem decidiu fazer uma longa viagem ao redor do mundo. Trabalhou duro para isso, juntou dinheiro e comprou um balão. Foi em um belo dia de sol em que ele deixou o seu país e subiu aos céus a bordo do seu novo veículo. Dez anos mais tarde, o homem retorna a seu povoado exatamente no mesmo dia em que havia partido. Achou curioso o fato de seu povoado estar em uma espécie de festa religiosa e procurou saber do que se tratava. Conheceu então os sacerdotes daquele novo culto, que adorava o filho do deus sol. Os sacerdotes contaram que há exatos dez anos o filho do deus sol havia subido aos céus e desaparecido com os raios do seu pai, o astro celeste que fornece luz e calor aos homens da terra. O viajante recém-chegado indignou-se com tamanho absurdo e explicou que não havia filho de sol algum. Contou que nessa mesma data ele havia saído do país montado num balão e ameaçou:

- Vou agora mesmo falar com o povo e acabar com essa palhaçada.

Ao que os sacerdotes imploraram:

- Por favor, não faça isso. Toda a moral do nosso povo hoje depende desse mito. Se você contar a verdade e tirar do povo a fé nesse culto, os homens desse povoado voltarão a ser maus.

Essa pequena história ilustra bem o papel da religião para boa parte da humanidade. O ser humano ainda precisa do papel limitador da religião para conter a sua animalidade, seus impulsos, seus vícios e descontroles. Não quero com isso dizer que a religião seja de todo ruim. No entanto, ela mostra que ainda precisamos caminhar uma longa distância até que a nossa compreensão alcance um estágio em que não mais precisemos de fatores externos para guiar a nossa consciência.

Bom mesmo seria se o homem já fosse capaz de construir valores sem o medo de um ser superior que o vigia e o pune quando erra. Em outras palavras, buscar o bem pelo bem. Fazer do bem um fim em si mesmo, e não um meio cuja recompensa é o fim do sofrimento. Porém, enquanto não encontramos a luz que brilha dentro de nós mesmos, continuaremos procurando algo que nos ilumine do lado fora, pois é insuportável para o homem viver na escuridão.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Por Uma Consciência Desperta

Venho refletindo essa semana sobre a diferença entre estar acordado e estar em um estado de consciência desperto. Qual a verdadeira diferença entre o estado de sono, quando sonhamos, e o estado de vigília, quando achamos que estamos despertos, conscientes de nossas ações? Do ponto de vista da consciência individual, será que dormimos naquele e despertamos nesse último? Quando dormimos e sonhamos quase não temos controle de nossas ações mentais, de forma que quando saímos do estado de sono, nos lembramos de cenas difusas e inverossímeis em meio às quais apenas reagimos da mesma maneira, sem muitas ações intencionais.

A consciência humana apenas percebe as coisas através dos contrastes que elas fazem com as outras. Imaginemos-nos, por exemplo, em um quarto fechado onde todos os móveis, a janela, a porta, o chão e o teto estivessem pintados exatamente da mesma cor, digamos branco, sem uma mínima variação de tonalidade. Imaginemos também que a iluminação no quarto estivesse tão bem distribuída que não se fizesse nenhuma sombra. Ao olharmos em volta do quarto, quase não perceberíamos objeto algum, pois os limites físicos dos objetos visualmente se misturariam por não haver variação de cor nem sombra. Para sairmos do quarto, provavelmente teríamos de recorrer ao tato até acharmos a porta. No entanto, se pintássemos a porta de marrom, o piso do chão fosse branco, as paredes fossem amarelas, cada objeto tivesse uma cor distinta e a iluminação fizesse sombras, logo os diferentes objetos ficariam claramente perceptíveis à nossa visão. São os contrastes e as variações que fazem as coisas serem percebidas pela nossa consciência.

Percebemos que uma pessoa é louca quando suas ações e seu discurso são incondizentes com os dos demais. Numa cidade onde todos sofressem do mesmo tipo de loucura, uma pessoa normal seria tida como louca, pois nessa cidade ser louco seria o padrão aceito de normalidade. A principal característica do louco é ser muito diferente dos demais. Da mesma forma, percebemos que alguém é estrangeiro pelos seus costumes diferentes, seus traços físicos peculiares, as roupas diferentes, a língua e o sotaque incomuns em nosso meio. O que alguém faz ser percebido como estrangeiro é o contraste que ele faz com os demais. Em seu próprio país esse alguém deixa de ser estrangeiro, não apenas pelo fato de ter nascido ali, mas por compartilhar das mesmas características socialmente aceitas.

Voltando à questão do sono e da vigília, julgamos que quando estamos acordados nossas ações são totalmente conscientes. Agimos porque queremos, através do livro arbítrio. No entanto, pode ser que não seja bem assim. Arthur Schopenhauer, eminente filósofo alemão, já dizia: “Podemos fazer o que queremos, mas não podemos querer o que queremos”. Essa é uma verdade que se aplica a quase todos nós. Eu posso, por exemplo, sentir vontade de colocar uma calça jeans ou uma bermuda para ir a uma festa, mas dificilmente passará por minha mente o desejo de vestir uma saia escocesa, seja numa ocasião de festa ou em outra qualquer. Isso é porque o meu querer (no exemplo, o desejo de vestir calça jeans ou bermuda) dificilmente quebrará a barreira dos padrões aceitos como normais pela sociedade. Assim como no exemplo, a maioria das nossas ações não ultrapassa essa barreira. Aceitamos os padrões impostos pelos meios em que convivemos sem muita reflexão ou questionamento. Certa vez li em um livro um exemplo interessante. Uma certa mulher, ao preparar pernil para o almoço, sempre cortava as pontas do pernil antes de colocá-lo na panela. O marido, em uma ocasião, perguntou por que preparava pernil daquela forma. Ela respondeu:

- Ah, eu faço assim porque foi desse jeito que mamãe me ensinou.

Então, contagiada pela curiosidade do marido, ela resolve ligar para a mãe para perguntar qual era a razão daquele modo de preparo. E a mãe responde:

- Faço pernil dessa maneira porque foi assim que eu aprendi com a sua avó.

Ainda não satisfeita com a resposta, ela finalmente liga para a avó para entender qual era a razão de se preparar pernil daquele jeito, ao que a avó responde:

- Ah, minha neta. Eu fazia assim porque a panela que eu tinha era muito pequena.

Infelizmente ainda há poucos que, imbuídos de curiosidade e desconfiança, questionam os porquês de suas próprias ações. Muitos de nós agimos apenas por reflexo das ações dos demais à nossa volta, e tal como os objetos brancos que desaparecem em um quarto onde todo o resto é branco, nossa individualidade se funde com os estímulos externos dos meios em que vivemos. Se o que diferencia o sonho da realidade é o fato de nossas ações mentais serem meros reflexos de estímulos difusos e sem nexo, a ponto de rirmos do sonho quando acordamos, enquanto estamos em atividade a situação não é muito diferente, pois apenas reagimos, da mesma maneira. As pessoas dificilmente intervêm nos próprios hábitos e no próprio querer de forma consciente. Uma debilidade coletiva se torna imperceptível para o indivíduo, pois ele não tem com o que constrastar, uma vez que ele mesmo se torna um portador de tal debilidade. Dessa maneira, muitos passam pela existência repetindo vícios, sucumbindo à mediocridade mental, praticando crueldades, desejando coisas fúteis de forma autômata e mecânica. Para boa parte da humanidade, existir é estar num estado de dormência constante.

O despertar da consciência começa quando aprendemos a constratar o que vemos dentro e fora de nós. A reflexão, o espírito investigativo, a curiosidade, a sinceridade para consigo mesmo, as desmitificações e um sentimento de inconformismo e indignação em meio as injustiças sociais funcionam, analogamente, como a tinta com que se pinta os objetos do quarto branco a fim de fazer as coisas perceptíveis. Infelizmente, viver dormindo ainda é muito mais cômodo. Há uma grande diferença entre existir e viver desperto. Obviamente, não escrevo esse texto como uma pessoa muito diferente das demais, mas como alguém que se esforça constantemente para despertar, evitando o risco de cair no sono, que é inerente à vida humana.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Onde Está a Beleza de Deus?

Julgo engraçado como determinadas visões religiosas podem ser arrogantes e até mesmo contraditórias em relação ao que pregam. Há pouco estava lendo um artigo cristão falando sobre um autor que publicou livros sobre sua filosofia de vida. Logo, o escritor do artigo, que era um pastor, tentou mostrar o caráter maligno e diabólico daquele autor, que inclusive falava de Deus, mas não a partir da visão da religião do pastor, o que foi suficiente para rotular o autor como satânico.

Por que algumas pessoas sempre acham que Deus é propriedade de seus caprichos, de seus dogmas, de suas verdades, de suas próprias limitações? Isso é tão egoísta, tão contraditório. “Deus é meu! Ele só se agrada da minha religião. Toda outra forma de se pensar é falsa, é Produto do diabo. Se você não é da minha religião, então Deus não está contigo! Isso não está no meu livro sagrado, portanto é mentira!”

A maioria das pessoas que creem em Deus acredita em sua onipresença, ou seja, no fato de que “Deus está em todo lugar”. Se creem que ele está em todo lugar, por que insistem em só ver o mal nas coisas? Se Deus está em todo canto, o certo não seria procurar a beleza dele em tudo que se vê? Tem gente que ouve uma música e diz: essa é música é maligna, pois o autor não é da minha religião. Se lê em um livro algo que interpretam ser diferente de seus dogmas, logo nem o livro nem o autor têm serventia. Se alguém frequenta uma religião diferente daquela que se acredita ser a certa, logo a outra pessoa está sendo dominada pelas forças do mal. Se alguém diz algo que não faz parte do seu conjunto de crenças pessoais, logo é um espírito mau que está tentando dissuadir.

Creio que nenhuma dessas pessoas, ao imaginar a plenitude de Deus, pensa em coisas feias, em desarmonia, em grosseria. Creio que todos, independentemente da religião, quando pensam em Deus, pensam em beleza, em harmonia, em paz, em compreensão, em aconchego e segurança. Alguns acreditam que, após a morte, tendo seguido à risca a vontade divina, irão para o paraíso, onde estarão em contato direto com Deus, podendo admirar diretamente a plenitude de sua beleza. Porém, como conseguirão apreciar a beleza de Deus após a morte se, em vida, só aprenderam a enxergar o ruim, o feio, o maligno, o contraditório?

Ninguém, ao ficar trancando muito tempo em um quarto escuro, consegue sair e olhar diretamente para o sol. É preciso ir abrindo os olhos aos poucos, ficar na sombra, olhar ao redor, readaptar-se à claridade para depois ter contato mais íntimo com a plenitude da luz solar. Não dá para ver a plenitude da beleza de Deus sem antes aprender a ver a beleza escondida nas mínimas coisas e em todas as coisas. É preciso ir se acostumando aos poucos. É preciso apreciar a beleza de uma canção, de um passarinho, de uma estrela, de um copo de água, de uma cachoeira, das palavras de um poeta, do livro de um autor, de um cachorro maltratado, de uma criança pestinha, de um companheiro de outra religião, de um descrente, de um sofrido, de um ladrão, de um louco... Pois, afinal de contas, Deus não está em todo canto? Quer dizer então que Deus é feio?

O próprio Cristo dizia em seu evangelho: “Os olhos são a candeia do corpo. Se teus olhos são maus, todo seu corpo será mau.” É como no ditado popular: “A beleza está nos olhos de quem vê”. O homem percebe as coisas pela manifestação dos opostos. Só entendemos a natureza de uma coisa porque há o oposto dela para comparar. Como posso entender o que é sentir calor se não sei o que é sentir frio? Como vou saber o que é verdadeiro se não aprender o que é falso? Como posso dizer que algo é bonito se não aprendi ainda o que é feio? Como sei que um lugar é longe se não houver a ideia de perto para eu comparar? Como posso dar valor ao bem se não sei o que é o mal?

O mal é uma ilusão, é a maneira pela qual a natureza nos leva a entender o que é o bem, a virtude. O mal não existe a não ser nos nossos olhos. Basta mudar o olhar, enxergar por outro ângulo pra constatar que tudo é belo e bom. Quando se entende do que se trata o mal, se pode entender o que é o bem.
A questão do bem e do mal é como a ilusão do “aqui” e do “lá”, ou do “hoje” e do “amanhã”. Você nunca pode estar “lá”. O outro pode estar, mas você nunca. Você está sempre “aqui”. Pode-se até dizer: “eu vou pra lá”, mas quando você chega “lá”, o “lá” se torna “aqui”. Eu estou sempre “aqui”. O “lá” é o “aqui” que está distante. Você diz: “Amanhã acordarei cedo”, mas quando você acorda, não pode dizer que o momento em que está acordando é “amanhã”, pois quando o “amanhã” chega, ele se torna o “hoje”. O amanhã não existe. Ele é uma criação da mente, um produto da distância. O mesmo ocorre com o mal. Ele é criação de nossa mente, um produto de nosso distanciamento, de nossa falta de compreensão da natureza benigna e harmoniosa de todas as coisas. O mal só existe quando olhamos de longe. Quando se olha de perto, sem medos e preconceitos, se vê que tudo é bom.
Enquanto o homem não aprender a ver a beleza e o bem de Deus no que dizem ser mau, não estará preparado para viver no paraíso, de onde se crê que se pode ver Deus, pois o paraíso é aqui e agora; é a maldade de nossos olhos que não nos permite enxergar. “O reino de Deus não é um lugar. Ele está dentro de vós.” Basta limpar bem os próprios olhos.