quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Onde Está a Beleza de Deus?

Julgo engraçado como determinadas visões religiosas podem ser arrogantes e até mesmo contraditórias em relação ao que pregam. Há pouco estava lendo um artigo cristão falando sobre um autor que publicou livros sobre sua filosofia de vida. Logo, o escritor do artigo, que era um pastor, tentou mostrar o caráter maligno e diabólico daquele autor, que inclusive falava de Deus, mas não a partir da visão da religião do pastor, o que foi suficiente para rotular o autor como satânico.

Por que algumas pessoas sempre acham que Deus é propriedade de seus caprichos, de seus dogmas, de suas verdades, de suas próprias limitações? Isso é tão egoísta, tão contraditório. “Deus é meu! Ele só se agrada da minha religião. Toda outra forma de se pensar é falsa, é Produto do diabo. Se você não é da minha religião, então Deus não está contigo! Isso não está no meu livro sagrado, portanto é mentira!”

A maioria das pessoas que creem em Deus acredita em sua onipresença, ou seja, no fato de que “Deus está em todo lugar”. Se creem que ele está em todo lugar, por que insistem em só ver o mal nas coisas? Se Deus está em todo canto, o certo não seria procurar a beleza dele em tudo que se vê? Tem gente que ouve uma música e diz: essa é música é maligna, pois o autor não é da minha religião. Se lê em um livro algo que interpretam ser diferente de seus dogmas, logo nem o livro nem o autor têm serventia. Se alguém frequenta uma religião diferente daquela que se acredita ser a certa, logo a outra pessoa está sendo dominada pelas forças do mal. Se alguém diz algo que não faz parte do seu conjunto de crenças pessoais, logo é um espírito mau que está tentando dissuadir.

Creio que nenhuma dessas pessoas, ao imaginar a plenitude de Deus, pensa em coisas feias, em desarmonia, em grosseria. Creio que todos, independentemente da religião, quando pensam em Deus, pensam em beleza, em harmonia, em paz, em compreensão, em aconchego e segurança. Alguns acreditam que, após a morte, tendo seguido à risca a vontade divina, irão para o paraíso, onde estarão em contato direto com Deus, podendo admirar diretamente a plenitude de sua beleza. Porém, como conseguirão apreciar a beleza de Deus após a morte se, em vida, só aprenderam a enxergar o ruim, o feio, o maligno, o contraditório?

Ninguém, ao ficar trancando muito tempo em um quarto escuro, consegue sair e olhar diretamente para o sol. É preciso ir abrindo os olhos aos poucos, ficar na sombra, olhar ao redor, readaptar-se à claridade para depois ter contato mais íntimo com a plenitude da luz solar. Não dá para ver a plenitude da beleza de Deus sem antes aprender a ver a beleza escondida nas mínimas coisas e em todas as coisas. É preciso ir se acostumando aos poucos. É preciso apreciar a beleza de uma canção, de um passarinho, de uma estrela, de um copo de água, de uma cachoeira, das palavras de um poeta, do livro de um autor, de um cachorro maltratado, de uma criança pestinha, de um companheiro de outra religião, de um descrente, de um sofrido, de um ladrão, de um louco... Pois, afinal de contas, Deus não está em todo canto? Quer dizer então que Deus é feio?

O próprio Cristo dizia em seu evangelho: “Os olhos são a candeia do corpo. Se teus olhos são maus, todo seu corpo será mau.” É como no ditado popular: “A beleza está nos olhos de quem vê”. O homem percebe as coisas pela manifestação dos opostos. Só entendemos a natureza de uma coisa porque há o oposto dela para comparar. Como posso entender o que é sentir calor se não sei o que é sentir frio? Como vou saber o que é verdadeiro se não aprender o que é falso? Como posso dizer que algo é bonito se não aprendi ainda o que é feio? Como sei que um lugar é longe se não houver a ideia de perto para eu comparar? Como posso dar valor ao bem se não sei o que é o mal?

O mal é uma ilusão, é a maneira pela qual a natureza nos leva a entender o que é o bem, a virtude. O mal não existe a não ser nos nossos olhos. Basta mudar o olhar, enxergar por outro ângulo pra constatar que tudo é belo e bom. Quando se entende do que se trata o mal, se pode entender o que é o bem.
A questão do bem e do mal é como a ilusão do “aqui” e do “lá”, ou do “hoje” e do “amanhã”. Você nunca pode estar “lá”. O outro pode estar, mas você nunca. Você está sempre “aqui”. Pode-se até dizer: “eu vou pra lá”, mas quando você chega “lá”, o “lá” se torna “aqui”. Eu estou sempre “aqui”. O “lá” é o “aqui” que está distante. Você diz: “Amanhã acordarei cedo”, mas quando você acorda, não pode dizer que o momento em que está acordando é “amanhã”, pois quando o “amanhã” chega, ele se torna o “hoje”. O amanhã não existe. Ele é uma criação da mente, um produto da distância. O mesmo ocorre com o mal. Ele é criação de nossa mente, um produto de nosso distanciamento, de nossa falta de compreensão da natureza benigna e harmoniosa de todas as coisas. O mal só existe quando olhamos de longe. Quando se olha de perto, sem medos e preconceitos, se vê que tudo é bom.
Enquanto o homem não aprender a ver a beleza e o bem de Deus no que dizem ser mau, não estará preparado para viver no paraíso, de onde se crê que se pode ver Deus, pois o paraíso é aqui e agora; é a maldade de nossos olhos que não nos permite enxergar. “O reino de Deus não é um lugar. Ele está dentro de vós.” Basta limpar bem os próprios olhos.

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